Comunidade 10 – O Projeto

Historicamente a Região da Vila Boa Vista, Parque Via Norte e entorno nunca pensou coletivamente num projeto de longo prazo para que possa avançar no seu desenvolvimento.

Considerada uma ilha, cercada de rodovias por todos os lados, a região se vê impedida de crescer, seja no âmbito populacional, seja também na integração de sua comunidade com os bairros vizinhos. Esta situação impede, por exemplo, que as demandas históricas (área de lazer, ampliação e construção de postos de saúde, melhorias viárias e tantas outras melhorias) sejam rejeitadas pelos órgãos públicos em decorrência de sua pequena população, pois a construção dos equipamentos públicos atende a critérios “técnicos”, como o atendimento de uma maior população  e densidade populacional. Ou seja, entre construir uma praça de esportes para o atendimento de 100 mil pessoas ou 10 mil, obviamente a estrutura do estado priorizará os serviços para uma população maior, deixando nossa região de fora de qualquer projeto social.

Enfim a Vila Boa Vista foi Construída para ser isolada e com isso não trazer riquezas produzidas por nós mesmos.

Em decorrência da negativa estrutura do estado em garantir melhorias e projetos de longo prazo, historicamente nossa população vê-se obrigada a reivindicar apenas a manutenção de áreas (poucas) de lazer e corte de árvores, deixando a população refém de administradores Regionais ou políticos que nunca ousaram em pensar maior na nossa região com um programa de desenvolvimento de médio e longo prazo, para assim garantir melhor qualidade de vida e convivência para seus moradores.

A idéia do PROJETO COMUNIDADE 10 inicia assim na construção de um novo projeto de desenvolvimento sócio-cultural para nossos moradores, buscando avançar muito mais nas conquistas sociais. A idéia do projeto é avançar muito mais do que projetos de pintar as guias de branco, cortar o mato e fazer a poda de árvores (que entendemos ser importantes) mas que não resolve os grandes problemas estruturais de nossa região.

Neste projeto entendemos que são prioritários o desenvolvimento de áreas prioritárias, como acesso a moradia, lazer, transporte, integração regional, meio ambiente, educação, geração de emprego e renda e memória, pois entendemos que estes são os principais temas que devem ser abordados inicialmente neste projeto. Não se trata de um projeto pronto e acabado, ele poderá sofrer alterações no decorrer do percurso, com novas idéias e ponderações de membros da comunidade que não podem ser descartadas, porque afinal,  a democracia participativa deve ser o principal objetivo do projeto, seu resultado depende exclusivamente disso, do empenho e participação massiva de seus moradores.

Nossa História

Campinas sempre fora considerada uma cidade separada, segredada e dividida entre explorados e exploradores. Estudos recentes apontam que a cidade gerou a partir da genealogia da Família Souza Aranha uma elite conservadora, escravagista e acumuladora de riquezas.

Com o início do ciclo do café a cidade se dividiu entre os do lado de cá da linha de trem (hoje atualmente o centro da cidade, local de convivência das elites, com teatros, centro de convivência, comércios, grandes mansões e suntuosos casarões dos barões de café) e os do lado de lá da linha (vila Industrial e São Bernardo) separados pela linha férrea, sem pouca ou nenhuma estrutura onde a maioria dos trabalhadores vivia em cortiços e locais insalubres, gerando muita desigualdade e discriminação.

Vale lembrar que a escravidão na cidade fora a mais violenta. Lembra a historiografia que os chamados escravos “rebeldes” sempre eram ameaçados com a frase “vou lhe vender para algum fazendeiro de Campinas”, devido à violência a que eram submetidos.

Com o crescimento populacional da cidade esta linha divisória (elites e trabalhadores) foram se estendendo até a rodovia anhanguera (os de cá e os de lá da rodovia) e recentemente a rodovia dos Bandeirantes. Projetos habitacionais na época da ditadura militar foram se desenvolvendo e criando os chamados bairros populares, desalojando famílias que moravam próximas ao centro, como Vila Industrial, São Bernardo e outros, e sendo criados bairros mais distantes, como Vila Castelo Branco, Vila Boa Vista etc, segregando ainda mais os trabalhadores de terem acesso aos equipamentos públicos como áreas de lazer (Bosque,Parque Taquaral, teatros, centro de convivências, etc).

Até as zonas de prostituição foram afastadas do centro, com a criação do jardim Itatinga, deixando a parte de lá da linha do trem (centro, Cambuí, Nova campinas, mansões Santo Antônio etc) cada vez mais longe dos pobres, pois a burguesia campineira historicamente tem nojo de pobre e não aceita outra classe social que possa “desvalorizar seus imóveis”. Este preconceito das elites campineiras prevalece até hoje e infelizmente também está inserido na maioria daqueles que produzem riquezas e que não possuem acesso á elas (nós trabalhadores), criando um pensamento igual das elite.

Importante lembrar que a entre os bairros populares existem vastas extensões de terras para favorecer a especulação imobiliária, que foram super-hiper-mega valorizadas com a chegada de infra estrutura construídas com dinheiro público, favorecendo assim investimentos privados para o loteamento destas áreas (uma pergunta que assalta o pensamento é porque a Vila Padre Anchieta fora construída 5 Km de distância da Vila Boa Vista se havia uma grande área da fazenda Boa Vista ao Lado? A resposta é bem simples: Com a construção da Vila Padre Anchieta, as áreas particulares á sua volta foram beneficiadas com a chegada desta infra estrutura criada com dinheiro público). Isso justifica, por exemplo, a criação do Parque Via Norte, afinal a infra estrutura já estava instalada, e poucos investimentos do proprietário foram feitos, aliás quase nenhum, pois o bairro ficou quase 20 anos irregular na prefeitura, e seus moradores pagaram do próprio bolso o asfalto, e as escolas, creches e postos de saúde da Vila Boa Vista fora utilizado para atender a demanda do bairro. A Família proprietária das terras ganharam vultosas somas de dinheiro no loteamento e até hoje não apresenta qualquer contra partida para as melhorias do bairro.

Dentro deste contexto histórico, podemos afirmar que a Vila Boa Vista e seus moradores é fruto deste processo histórico de perseguição, preconceito e discriminação das elites da cidade. Pensar num projeto de desenvolvimento para nossa região não virá das mãos de heróis bonzinhos, amigos do bairro e políticos que se entranham nas estruturas do poder e pensam da mesma maneira que as elites. É necessário pensar historicamente quem somos? O que produzimos? E o que queremos para não cometer os mesmos erros e não ficar subserviente aos interesses imobiliários e políticos da mesma elite que domina a cidade desde a chegada das primeiras caravelas.

Pensar num projeto de desenvolvimento para a nossa região não é pedir, não é ficar de joelhos ás elites, é necessário enfrentar de punhos cerrados e exigir a reparação histórica da riqueza que produzimos ao longo de séculos de opressão e exploração. Temos o direito legítimo de exigir de volta toda a riqueza que produzimos por nós e nossos antepassados para garantir qualidade de vida e um futuro melhor. Pintar guias de branco, cortar matos e limpar as bocas de lobo não é favor, é obrigação, e exigir educação de qualidade, melhorar nossa malha viária, a construção de um posto de Saúde que atenda nossas demandas, um parque Linear, projetos de preservação da memória histórica, e tantas outras melhorias deve ser a pauta de reivindicações históricas de nossa região. Para isso exigimos as melhorias necessárias para reparar tudo isso.

De mãos cerradas lutando deveremos empunhar nossas bandeiras e sair na luta para exigir o que nos foi roubado e saqueado, em memória de nossos antepassados e também em defesa de nossos filhos e netos.

Tudo isso não será obra de um político ou de uma cadeira na Câmara de Vereadores, será obra de uma organização mais ampla, que envolva todos; jovens, lideranças comunitárias, mulheres, negros e negras e de todos aqueles que desejam qualidade de vida e o fim desta opressão histórica.

Nas outras páginas deste site faremos uma proposta das melhorias que entendemos necessárias para nosso desenvolvimento (obrigação do estado e das elites) nas áreas de educação, Memória, meio Ambiente, Moradia, Trabalho e Renda, Transporte e malha viária entre outros temas que entendemos como necessário para a devolução das riquezas que produzimos durante mais de 2 séculos de opressão.

Você também poderá colocar idéias e outras pautas que sejam necessárias para nosso desenvolvimento.

 Vila Boa Vista – Planejada para construir do lado de cima, mas a especulação imobiliária falou mais alto

A Vila Boa Vista foi um bairro concebido com um planejamento urbano que não merecia reparos até meados da década de 80. Concebida para atender sua população, o bairro teve seus espaços públicos garantidos, como praças, Centro de lazer (atual sede), posto de saúde, centro comercial (hoje Shopping Mix) e tantas outras benfeitorias que visavam seu desenvolvimento para atender a população. Não demorou muito a escola do Zink foi construída e posteriormente a escola Reverendo Nogueira. Em 1976 foi inaugurada as duas creches, e na década de 80 o posto de saúde foi inaugurado na área central do bairro, tudo como planejado.

Seu planejamento fora concebido para atender muito bem a população e seu crescimento seria pela parte posterior a rodovia Campinas Monte Mór (onde hoje funciona as empresas White Martins, Incotela, Fort Dodge e outras) garantindo que os equipamentos públicos ficassem bem localizados e centralizados para atender demandas de outros empreendimentos de moradia.

 Entretanto, numa bela manhã de 1978, máquinas e equipamentos de terraplanagem começam a destruir parte da Fazenda Boa Vista, dando início ao loteamento irregular do Parque Via Norte. Sem nenhum parecer de permissão do Condephac, um patrimônio histórico considerável começa a ser destruído, pois naquele local encontrava-se um dos últimos remanescentes da escravidão da cidade.

Senzalas, áreas de secagem de café, olarias do século XVIII, um grande muro de barro construído pelos escravos e a sede da fazenda Boa Vista foram sucumbidos em questão de dias deixando os moradores da Vila Boa Vista perplexos. Se houvesse a regularidade do empreendimento com a preservação destes equipamentos históricos, talvez hoje a região tivesse um importante atrativo turístico e de preservação histórica, que poderia dar um certo valor e importância histórica para a região.

Vale lembrar que da época da escravidão todo o patrimônio Histórico da cidade ficou restrito apenas aos casarões suntuosos dos barões de café, as senzalas onde viviam os escravos e as péssimas condições de trabalho a que foram submetidos foram destruídos, como se fosse a queima de provas, a queima do arquivo da história da opressão.

As elites campineiras sempre tiveram medo de uma possível reparação histórica de suas atrocidades pelos descendentes de escravos, e por isso com a permissão do estado (ou omissão) e a política de especulação imobiliária imperando, fora fácil destruir um patrimônio Histórico. Ainda mais se este patrimônio histórico coloca no banco dos réus as elites e seus descendentes que se locupletam ainda hoje da riqueza construída pelo povo escravizado. Repararam como nossa região também fez parte da história da cidade?

Entretanto, sobraram resquícios históricos que precisam ser preservados. Segundo o ex-administrador regional da gestão Toninho/Izalene Sebastião Vecchi, ainda encontra-se preservados debaixo da terra resquícios deste período na qual é possível serem recuperados.

Qual o papel Histórico do Córrego que corta o Parque Via Norte ao Meio?

Outro fator que merece destaque é o ribeirão que nasce na fazenda chapadão, atravessa o Jardim Eulina e corta toda a extensão do Parque Via Norte.

Durante muito tempo as elites campineiras lhe deram o nome de córrego Boa Vista, em alusão a antiga fazenda, mas que historicamente sempre fora chamado de Ribeirão Quilombo. Foram margeando este córrego que os escravos oprimidos pela violência das elites campineiras chegavam ao Quilombo de Sumaré para serem livres da opressão, da violência e das agruras da escravidão. Por muito tempo tentaram dar outro nome ao córrego para que a história dos escravizados não pudessem ser contada para não gerar mais grito de liberdade, mais grito contra a opressão das elites campineiras.

Entretanto o nome de córrego Boa Vista nunca vingou, ficou no imaginário popular o nome de Ribeirão Quilombo, que até hoje vive na memória dos povos oprimidos da cidade. Entretanto o Ribeirão está morrendo, devido à poluição em decorrência de dejetos industriais e de esgotos. Durante o aterramento para o loteamento do Parque Via Norte, diversas nascentes foram soterradas e ainda existe no imaginário das elites  a possibilidade de soterrar a história da luta do povo escravizado com uma possível canalização deste importante afluente.

Torna-se necessário sua preservação, a recuperação de suas nascentes e também o resgate de sua importância história para a nossa cidade. A luta pela recuperação deste córrego pela população do Parque Via Norte e Vila Boa Vista terá uma grande contribuição para a história da cidade e de preservação da memória do povo negro de campinas.

Outro fator que merece destaque no loteamento do Parque Via Norte foi a ganância dos antigos loteadores. Sua concepção (como de todos os capitalistas do mundo) foi ganhar dinheiro fácil, ganhar dinheiro mamando nas tetas do estado e do povo. Perambulando pelo Parque Via Norte em toda a sua extensão, percebemos que não fora um bairro planejado, organizado para garantir qualidade de vida para seus moradores. Não existe locais para praças, escolas, áreas de lazer e equipamentos públicos. Tudo foi loteado, tudo foi otimizado para a ganância e a especulação imobiliária.

Os únicos espaços da região do Parque Via Norte que se tornaram públicos foram áreas onde se necessitam de grandes investimentos públicos para serem utilizados. Não são áreas possíveis de se construir postos de saúde, praças de lazer ou outros equipamentos públicos sem que haja grandes investimentos.

Entretanto não podemos deixar de cobrar do loteador estes espaços. Cabe a contrapartida histórica de recuperação destes espaços para garantia do bem estar da comunidade. A venda dos lotes gerou muita especulação imobiliária, muita riqueza e nada fora dado em contrapartida aos moradores. Entretanto ainda existem grandes extensões de terras destes especuladores na região que necessitam ser entregues á comunidade para a construção de equipamentos públicos para garantir qualidade de vida.

Uma destas áreas é a área de especulação imobiliária localizada entre a faculdade Anhanguera e o Jóquei Clube. Uma grande extensão de terra que precisa ser garantida a população em contrapartida da ganância dos especuladores. Defendemos que esta área seja adquirida pelos loteadores do Parque Via Norte e entregue á prefeitura para a destinação de construção de uma área de lazer, de equipamentos públicos, como escola técnica federal, Unidade de Pronto Atendimento e uma Unidade do Centro de Tecnologia de Informação, bem como a construção de moradias para os filhos dos moradores da Vila Boa Vista e Parque Via norte, que já se encontram na terceira geração e pagam aluguéis altos, contribuindo para o grande déficit habitacional da cidade.

Esta é uma medida política e técnica para reparar os desmandos da especulação imobiliária da cidade de Campinas e particularmente para os moradores da Vila Boa Vista e Parque Via Norte, que sempre foram esquecidos das políticas públicas do estado. Trata-se de medidas reparatórias diante de quase 50 anos de abandono de nossa região.